Quarta-feira, Fevereiro 01, 2012

A casa dos segredos (ou a Oeste... nada de novo)



Com Janeiro não chegou só uma espécie de nova era na condução dos destinos políticos desta santa terrinha. A juntar à proliferação de comunicados, à radicalização do discurso, às movimentações partidárias… em suma, ao nervoso miudinho que para aí vai (e falta a parte da reabertura de clivagens e feridas antigas, mas “eles” lá chegarão)… eis que, em assumido tempo de crise, a Figueira da Foz inova e de que maneira: de um momento para o outro parece que a solução para os males do burgo, para a identidade colectiva, para potenciar a participação cívica, para dar voz aos desconsiderados e descamisados é… um jornal!

O pontapé de saída (e, sim, acreditem, a terminologia futebolística aqui faz todo o sentido) foi dado há uns 15 dias na Meca de toda a comunicação actual... a rede social Facebook, claro.

De um momento para o outro, o jornal A Linha do Oeste… tcham tcham tcham… voltou! Ou por outra, anunciou que voltou. Não é bem assim… anunciou que voltará, assim é que é! Anunciou, a ideia recolheu uma massiva adesão de 31 “gostos” no Facebook, formou-se uma onda gigante, um turbilhão imparável, uma vaga tão de fundo que parece que entrou pela porta de um qualquer escritório, saiu pela janela e desvaneceu-se no jardim… Parece! E, dito isto… temos (algum, poucochinho) pano para mangas…!

Anunciar o regresso de um título que saiu das bancas há uma década, apelando ao saudosismo – ai Figueira, tão saudosista que és – dos leitores, interventores políticos (mas só os que, à época, não estavam no poder, o mesmo poder, rosa ou laranja que criticava publicamente o jornal, e, depois, em privado, dava sonoras gargalhadas e amigas palmadinhas) e de todos os opinion makers locais, é, convenhamos, uma grandiosa tarefa.

Anunciar o regresso de um título recordando edições antigas dos jornais, recordando o que esse título foi, na sua época, não é ser grandioso… dar a entender que os pais da criança (original) estiveram adormecidos década e meia e agora acordaram para a vida, outra vez… não é, de todo, ser grandioso… querer dar a entender que qualquer um faz um jornal idêntico, tal qual a Linha do Oeste era… e tanto assim é, que aí está o anunciado regresso… presunção e água benta cada um toma a que quer, lá diz o povo!

Durante quase quatro anos fiz parte da pandilha (não há outra maneira de o dizer) que editou, no meu caso semanalmente, o jornal A Linha do Oeste. Pandilha sem qualquer sentido pejorativo, muito pelo contrário, apenas porque se tratava de um grupo de gente que só podia ter enlouquecido para conseguir criar, naqueles tempos e naquelas condições, um produto jornalístico que marcou – mal ou bem – uma época nesta cidade.

Podia aqui dissertar sobre centenas, milhares de histórias desses tempos, mas isso fica para um outro local mais próprio. Prefiro só assinalar o verdadeiro gozo que dava fazer aquele jornal, deixando o resto à imaginação de quem me lê.

No seu tempo, A Linha do Oeste lutou sempre, abertamente, contra censuras, silêncios e segredos. É, no mínimo, paradoxal que agora, se anuncie o seu regresso… em anonimato funcional. Quem diz que faz e quem manda fazer é segredo (segredo de Polichinelo, mas segredo), quem dirige e gere canta hossanas nas alturas ao projecto… mas sem se descair (logo, em segredo) e, quem trabalha e edita o jornal - se é que o jornal vai chegar a ser jornal - ninguém sabe (mas serão os únicos que dificilmente o conseguirão fazer… em segredo)!