Miguel Almeida
comunicou ontem aos órgãos de comunicação social o que há muito se sabia: que é candidato à
comissão política concelhia do PPD/PSD.
No texto que
assina, em folha de rosto onde já está inserido o seu logotipo – um coração
a fazer lembrar a filigrana minhota, mas com a silhueta de um Forte de
Santa Catarina (em obras?) e um peixe (será um golfinho, o delfim do
omnipresente Pedro Santana Lopes?) – e o seu lema, “Figueira, de alma e coração”,
o vereador não executivo da autarquia figueirense e chefe de gabinete do
vereador não executivo da Câmara lisboeta (o mesmo Santana Lopes) dá a conhecer
as razões da sua candidatura. Dá? Bem, vai dando… algumas escreve-as, outras
adivinham-se.
Senão,
vejamos:
O comunicado começa com uma referência temporal:
“Três semanas após o actual presidente da comissão política concelhia da
Figueira da Foz do PPD/PSD ter anunciado que não é candidato a um 3º mandato… ”.
E quem é o actual presidente? O aparentemente inominável Lídio Lopes, que até
já veio a público admitir que apoiava a candidatura de Miguel Almeida.
Ingratidão? Desinteresse? Demarcação? Gralha? Esquecimento? O tempo o dirá.
Adiante. “Entendo, sem falsas modéstias, que neste
momento, e para os combates políticos que temos pela frente, sou o militante
melhor colocado para dirigir os destinos do partido na Figueira da Foz”, diz
Miguel. E a partir daí discorre sobre os novos tempos – não há notícia de
tempos que se repitam tout court, mas os políticos insistem no chavão, à
direita e à esquerda – e as novas ideias… que aguarda.
Exactamente. À
semelhança de Pedro Passos Coelho, seu líder nacional e primeiro-ministro de
todos nós, Miguel quer ouvir, não Portugal, mas a Figueira. Se bem que, com
tantas deslocações a Lisboa, o mais provável é que também possa escutar umas
dicas com sotaque alfacinha, quiçá do (seu) próprio mentor. E como, e quem, e
para quê… é que Almeida quer ouvir as ideias? De alma e coração, já se sabe. Com cabeça,
espera-se.
Mas, para já, com
uma espécie de veste de caça-talentos: ele quer ouvir todos, militantes e não
militantes, “mulheres e homens que tenham uma vivência cívica forte, na sua
rua, no seu bairro, na sua freguesia, no nosso concelho”, e que por isso também
podem render votos, nas eleições internas e nas seguintes, mas de certezinha
que isso agora não interessa nada.
“A lista para os órgãos concelhios será formada de uma
forma inovadora, não só pelos tradicionais convites pessoais, mas também, e acima
de tudo, pela inclusão de militantes que venham a demonstrar vontade de
participar neste novo projecto”, anuncia. Como serão convidados estes
militantes voluntariosos, uma vez que não será através dos «tradicionais
convites pessoais», é coisa que ainda nos escapa: impõem-se? Voluntariam-se?
Inscrevem-se e é por ordem de candidatura? Desatam a correr rua da Liberdade
abaixo e ganha o primeiro a chegar à sede? Mistério…
Pouco importa. O
que importa é preparar a batalha das eleições autárquicas, para “devolver aos
figueirenses a esperança de que é possível viver num concelho que se afirme no
contexto regional”… e blá blá blá… “É
urgente resgatar o brilho de outros tempos; é preciso voltar a colocar a
Figueira no mapa”. Podia haver uma frase do estilo “os revivalismos estão na
moda”… mas não há, lamentavelmente!
Mas com que projectos?
Isso vê-se depois, quando os tais novos rostos providenciarem as ideias de que,
até ver, nem sombra…!
Last but not the least… Miguel Almeida, que não
nasceu agora para a política, quer apostar nas novas plataformas, ou seja, vai
promover a sua candidatura na Internet e no Facebook, pelo menos. Porquê?
Porque já percebeu que há uma grande e motivada comunidade de cibernautas que
faz opinião, que espalha tendências, que se deixa seduzir mais facilmente pelo
virtual do que arrastar para comícios. E porque não é difícil perceber que se
nas autárquicas o combate for contra João Ataíde… nem o ciberespaço é
território que lhe seja especialmente querido, nem se prevê que, à época, o
presidente da Câmara tenha ainda ao seu lado quem possa ser o seu avatar
candidato.
Almeida só peca, neste anúncio, por recuperar as
gastas, descredibilizadas e até já motivo de chacota, figuras do “gabinete de
estudos” e “conselho consultivo”. Ele bem garante que “não serão dois órgãos para
fazer de conta”, e até atiça a curiosidade com um liminar “como se verá pelas
pessoas que os presidirão”.
Mas, de alma e coração, os figueirenses estão
saturados, imunizados até, contra este discurso. “Destas duas estruturas sairá
muito do pensamento político que guiará os destinos do partido para os próximos
dois anos e as bases do programa eleitoral com o qual nos apresentaremos às
próximas eleições autárquicas. Iremos organizar vários debates e conferências
em moldes inovadores e que a seu tempo serão apresentados”, anuncia Miguel
Almeida, num discurso a fazer lembrar (um bocadinho, só mesmo um bocadinho) o
do Movimento Figueira 100%, aquele cuja pré-coligação com o PSD abortou ainda
antes da concepção.
“Ah, não querem
coligar-se connosco? Então apropriamo-nos do vosso registo de abertura à
sociedade civil”, deve ter pensado Miguel Almeida. Mas se com o Movimento, à
primeira, este registo até «colou», porque tinham como bandeira não ter um
partido às costas, já do candidato (a candidato?) e do PSD exigir-se-á mais:
ideias próprias – aquelas que têm faltado na Figueira – e um plano que, para
além de alma e coração, tenha cabeça.