Terça-feira, Janeiro 31, 2012

O anúncio pré-anunciado

Miguel Almeida comunicou ontem aos órgãos de comunicação social o que há muito se sabia: que é candidato à comissão política concelhia do PPD/PSD. 

No texto que assina, em folha de rosto onde já está inserido o seu logotipo – um coração a fazer lembrar a filigrana minhota, mas com a silhueta de um Forte de Santa Catarina (em obras?)  e um peixe (será um golfinho, o delfim do omnipresente Pedro Santana Lopes?) – e o seu lema, “Figueira, de alma e coração”, o vereador não executivo da autarquia figueirense e chefe de gabinete do vereador não executivo da Câmara lisboeta (o mesmo Santana Lopes) dá a conhecer as razões da sua candidatura. Dá? Bem, vai dando… algumas escreve-as, outras adivinham-se. 

Senão, vejamos: 
O comunicado começa com uma referência temporal: “Três semanas após o actual presidente da comissão política concelhia da Figueira da Foz do PPD/PSD ter anunciado que não é candidato a um 3º mandato… ”. E quem é o actual presidente? O aparentemente inominável Lídio Lopes, que até já veio a público admitir que apoiava a candidatura de Miguel Almeida. Ingratidão? Desinteresse? Demarcação? Gralha? Esquecimento? O tempo o dirá.


Adiante. “Entendo, sem falsas modéstias, que neste momento, e para os combates políticos que temos pela frente, sou o militante melhor colocado para dirigir os destinos do partido na Figueira da Foz”, diz Miguel. E a partir daí discorre sobre os novos tempos – não há notícia de tempos que se repitam tout court, mas os políticos insistem no chavão, à direita e à esquerda – e as novas ideias… que aguarda.

Exactamente. À semelhança de Pedro Passos Coelho, seu líder nacional e primeiro-ministro de todos nós, Miguel quer ouvir, não Portugal, mas a Figueira. Se bem que, com tantas deslocações a Lisboa, o mais provável é que também possa escutar umas dicas com sotaque alfacinha, quiçá do (seu) próprio mentor. E como, e quem, e para quê… é que Almeida quer ouvir as ideias? De alma e coração, já se sabe. Com cabeça, espera-se.

Mas, para já, com uma espécie de veste de caça-talentos: ele quer ouvir todos, militantes e não militantes, “mulheres e homens que tenham uma vivência cívica forte, na sua rua, no seu bairro, na sua freguesia, no nosso concelho”, e que por isso também podem render votos, nas eleições internas e nas seguintes, mas de certezinha que isso agora não interessa nada. 

“A lista para os órgãos concelhios será formada de uma forma inovadora, não só pelos tradicionais convites pessoais, mas também, e acima de tudo, pela inclusão de militantes que venham a demonstrar vontade de participar neste novo projecto”, anuncia. Como serão convidados estes militantes voluntariosos, uma vez que não será através dos «tradicionais convites pessoais», é coisa que ainda nos escapa: impõem-se? Voluntariam-se? Inscrevem-se e é por ordem de candidatura? Desatam a correr rua da Liberdade abaixo e ganha o primeiro a chegar à sede? Mistério…

Pouco importa. O que importa é preparar a batalha das eleições autárquicas, para “devolver aos figueirenses a esperança de que é possível viver num concelho que se afirme no contexto regional”… e blá blá blá…  “É urgente resgatar o brilho de outros tempos; é preciso voltar a colocar a Figueira no mapa”. Podia haver uma frase do estilo “os revivalismos estão na moda”… mas não há, lamentavelmente!
Mas com que projectos? Isso vê-se depois, quando os tais novos rostos providenciarem as ideias de que, até ver, nem sombra…!

Last but not the least… Miguel Almeida, que não nasceu agora para a política, quer apostar nas novas plataformas, ou seja, vai promover a sua candidatura na Internet e no Facebook, pelo menos. Porquê? Porque já percebeu que há uma grande e motivada comunidade de cibernautas que faz opinião, que espalha tendências, que se deixa seduzir mais facilmente pelo virtual do que arrastar para comícios. E porque não é difícil perceber que se nas autárquicas o combate for contra João Ataíde… nem o ciberespaço é território que lhe seja especialmente querido, nem se prevê que, à época, o presidente da Câmara tenha ainda ao seu lado quem possa ser o seu avatar candidato.

Almeida só peca, neste anúncio, por recuperar as gastas, descredibilizadas e até já motivo de chacota, figuras do “gabinete de estudos” e “conselho consultivo”. Ele bem garante que “não serão dois órgãos para fazer de conta”, e até atiça a curiosidade com um liminar “como se verá pelas pessoas que os presidirão”.
Mas, de alma e coração, os figueirenses estão saturados, imunizados até, contra este discurso. “Destas duas estruturas sairá muito do pensamento político que guiará os destinos do partido para os próximos dois anos e as bases do programa eleitoral com o qual nos apresentaremos às próximas eleições autárquicas. Iremos organizar vários debates e conferências em moldes inovadores e que a seu tempo serão apresentados”, anuncia Miguel Almeida, num discurso a fazer lembrar (um bocadinho, só mesmo um bocadinho) o do Movimento Figueira 100%, aquele cuja pré-coligação com o PSD abortou ainda antes da concepção. 


“Ah, não querem coligar-se connosco? Então apropriamo-nos do vosso registo de abertura à sociedade civil”, deve ter pensado Miguel Almeida. Mas se com o Movimento, à primeira, este registo até «colou», porque tinham como bandeira não ter um partido às costas, já do candidato (a candidato?) e do PSD exigir-se-á mais: ideias próprias – aquelas que têm faltado na Figueira – e um plano que, para além de alma e coração, tenha cabeça.